Se eu falasse a língua dos anjos

29.11.2012
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Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

Monte Castelo, uma das músicas mais famosas do Legião Urbana, foi escrita a quatro mãos. Quase toda a letra vem das cartas de Paulo, um romano que se converteu ao cristianismo e pregou com tamanha eloquência e determinação que, sem ele, talvez a religião nunca tivesse se expandido além das terras da Judeia.

Mas se quem for ler algumas traduções da primeira Carta aos Coríntios, de onde vem esta poema, vai encontrar algo diferente.

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, (…) nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.”

Caridade? Como assim? E o amor?

Caridade é palavra fraca, gasta, torcida pelos séculos. Ela significa, até onde a vida cotidiana a usa, “dar coisas para quem precisa”. Hoje, caridade é algo bem menos forte do que amor. Algo aconteceu pelos séculos que a dissolveu, roubando o sentido original.

Os escritos de Paulo que chegaram até nós estão em grego. Cada língua tem a sua peculiaridade, sua maneira especial de entender o mundo — tente explicar a diferença entre “ser e estar” para um americano, ou procurar uma tradução do substantivo “saudade” em qualquer língua que não o português, que você vai perceber isto. O grego tem duas palavras para aquilo que a gente chama de amor, e no original isto é bem claro. Uma é filos, um amor de se pegar, algo alegre mas mundano; um querer, um misto de afeto e desejo. A outra é ágape, denotando algo muito mais elevado, um amor sublime, além do entendimento, da paixão, do mundo.

É do segundo que a carta de Paulo fala. Ágape.

Quando foi-se traduzir isto para o latim (e tradução é sempre uma encrenca, ainda mais no contexto da religião), os tradutores escolheram traduzir o amor apegado como amor, e o amor divino, expansivo, sublime, como caridade. Caridade vem de carus, aquilo que é caro a você, que você guarda mais próximo do peito, de si mesmo; e tinha, em latim, um significado forte.

Que declínio este da palavra “caridade”. De um amor divino, algo sem explicação, que transcende barreiras, virou um sinônimo para assistencialismo. Eu imagino, até, como ocorreu: os cristãos, que no início eram uma minoria, saíam por aí fazendo o bem em nome deste amor divino, a caridade. E enquanto o conceito mundano ficou, o sublime foi engolido pelos séculos, tanto na fala coloquial quanto nas motivações de muita gente.

Se me perguntassem se eu queria ter caridade antes de entender isto tudo, eu iria dar de ombros. Claro, por que não? Mas sem entusiasmo. Eu tinha, sabe, preconceito com a palavra. Parecia carola, enfadonha.

Mas agora, depois de entender que ela traduz algo que significa algo mais do que o amor, que é, na verdade, o Amor, eu a quero muito. Não a caridade morna dos que entregam um agasalho por ano para apaziguar a consciência, mas este Amor fulgurante que nos faz tudo ser caro, nos faz admirar o mundo, amor de explodir o peito. Amor pelas coisas todas da vida: os amigos, os inimigos, os mendigos e os tortos, os heróis e os vilões. Trazer o mundo inteiro consigo, e o Amar — isto é caridade.

E, de repente, o poema de Paulo começa a fazer sentido. E é lindo.

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. (… ) Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é a caridade.

Amma Dé on Dec 02, 2012 at 01:20 said:
O dilema dos poetas e de todos que querem dividir o que sentem é que palavras não são a total expressão de sentimentos, valores e outras coisas abstratas. Ficam longe de sua imensidão e profundidade ,,,
Rosemary Hanai on Nov 29, 2012 at 02:03 said:
Através deste texto, meu entendimento sobre muitas coisas se ajusta. Sinto que podemos purificar palavras proferidas e atos praticados através dos tempos à medida que purificamos o coração e agimos através dele, encontrando seu verdadeiro sentido.

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